top of page
Buscar

■ Qual é o seu pedido?

  • Foto do escritor: Rubens Marchioni
    Rubens Marchioni
  • 26 de jul. de 2023
  • 4 min de leitura

Daniel entrou na lanchonete e pediu um cheeseburguer. Grudou o olho na tela da TV, que mostrava uma partida de futebol. Ele se limitava a jogar uma pelada aqui, outra ali. A amoreira em frente ao restaurante manchava a calçada de vermelho, e a árvore podia contar com a companhia de uma Azaléia que crescia grudada em sua raiz e nunca recebeu um centavo pela beleza sempre original.

O balconista encaminhou o pedido ao copeiro, que fez o lanche pedido, com capricho, para o corretor de seguros cheio de uma autoconfiança que mal podia acomodar. O balconista ganhava para isso, é claro. E recebia pontualmente o pagamento pelo trabalho combinado, seja ele um valor alto, justo, abaixo da média do mercado, aquém das capacidades daquele profissional, não importa. Ao menos era essa a visão corrente, segundo a qual o dinheiro, único parâmetro, resolve tudo. Aliás, o garçom poupava excessivamente e sofria quando tinha de gastar, mesmo tendo dinheiro disponível.

Enquanto esperava, Daniel empurrou com força o açucareiro que estava sobre a mesa, depois o colocou na mesa lateral, próxima ao corredor e a uma árvore de Natal que, naquele lugar, não tinha o menor clima para festas.

– Tem alguma coisa errada com o meu lanche. O que vocês colocaram aqui? – perguntou Daniel, com ar de estranheza e pouca satisfação, usando como recurso teatral as sobrancelhas indisciplinadas. E sempre acreditava que o corpo em boa forma e as mãos largas significassem uma grande força, capaz de convencer pessoas com mais facilidade.

– Bem, o senhor pediu um cheeseburguer, não é mesmo? – respondeu o balconista.

– Sim, foi o que eu pedi. E a cerveja podia estar mais gelada, não acha? – o olho continuava pregado na TV.

– E foi o que eu fiz. O que há de errado com o seu lanche, senhor?

– Ele tem queijo e eu não gosto de queijo. – disse, apontando o dedo indicador e mantendo o olho pregado na TV. O queijo sentiu na pele o que é viver a falta de prestígio.

– Tudo bem, mas cheeseburguer tem queijo, não é mesmo?

– Sim, claro que tem. Mas por que no “meu” lanche? – o olho continuava pregado na TV. Um clérigo, que esperava uma refeição para alimentar um faminto que frequentava a porta da igreja pensou em intervir. “Só Jesus na causa, se é que ele vai querer se envolver com isso” – refletiu. Outros clientes assistiam a pendenga, ansiosos por ver aonde essa história chegaria. Talvez Freud, com a ajuda de Jung, conseguisse explicar ao menos alguns aspectos desse comportamento. Daniel retirou o queijo e comeu o a outra parte do lanche.

Algum tempo se passou – alguns dias, na verdade. Muita gente passou por aquele balcão. Muitos lanches passaram por aquela chapa, atendendo a clientes que realmente queriam cheeseburguer, talvez por causa do queijo que se escondia lá dentro e se esparramava paladar afora. E a vida corria tranquila naquele restaurante até o dia em Daniel voltou.

Um dia, cheio de apetite, dentro da inevitável jaqueta cinza e da calça jeans, e atrás dos óculos de sol com lente verde, pediu o seu lanche preferido.

– Me traz um cheeseburguer. E uma cerveja bem gelada.

– É pra já – respondeu o mesmo balconista, preparado para os possíveis momentos belicosos que certamente adviriam naquela relação mal-resolvida.

– Outra vez a mesma coisa? Eu não disse que não gosto de queijo? – disse, apontando o dedo indicador para o balconista. De novo o queijo se sentiu mal. Teve vontade de ir embora, de se transformar de novo em leite. Novamente Daniel comeu apenas o que apreciava.

– O que foi mesmo que o cavalheiro pediu? – perguntou o balconista, com uma pontinha apenas de irritação e a segurança quanto ao fato de que aquele cliente era bom de apetite, apenas não sabia direito o que queria comer, só desejava criar problemas. Não se sabe exatamente por que, o balconista se lembrou de seu filho de três anos, quanto trabalho aquele menino dá a cada refeição, parece que não gosta de nada! Quer comer, não quer, mas quer... Agia como se fosse um político em dia de votação no Congresso, o menino.

Trabalhando como corretor de seguros, Daniel entendia de uma porção de coisas, as quais fazia muito bem, menos de lanches. Mas talvez não aceitasse a possibilidade de delegar a tarefa de providenciar lanches a alguém do ramo.

Depois de pagar, em silêncio, ele saiu, tomou um café cheio de açúcar na cafeteria ao lado e voltou para o trabalho. Estava visivelmente irritado, o sujeito, a todo o momento ajeitando o cabelo cor de cinza metal.

Fala daqui, fala dali, contou o ocorrido, descrevendo física e moralmente o balconista que o atendera nas diversas vezes em que pediu o polêmico lanche. No final de cada frase, fazia questão de insistir no que ele chamava de incompetência do balconista para assuntos de cheeseburguer, sobretudo quando solicitado a fazer um sem o indesejado aroma ou sabor de queijo. Disse que falaria com o gerente, a quem pediria a demissão daquele funcionário.

Querendo acertar, agora convicto de que atendia fielmente ao pedido do cliente difícil, o balconista já havia trocado ideias com outros colegas do ramo. A partir daí foi tudo muito simples: sempre que Daniel pedia um cheeseburguer o balconista se apressava em encomendar ao copeiro um pão com presunto e tomate – no capricho.

Daniel comeu tudo, com gosto. Depois lavou as mãos, como sempre gastando muito mais tempo e com maior frequência do que o necessário.

Diz a lenda que desde então naquela lanchonete reinou a paz, e o cliente entrou para o rol dos que viviam momentos de extrema satisfação. Mas como reparar os danos causados ao funcionário pelos julgamentos inconvenientes proferidos a seu respeito?

Não sei por que, mas me veio à memória o fato de que Nizan Guanaes, o publicitário por excelência, afirmou certa vez que parte do seu sucesso se devia ao fato de atender clientes que sabiam pedir, pediam exatamente o que esperavam receber. Tudo indica que se ele desejasse comer um singelo pão com presunto e tomate não jogaria suas bombas sobre a cabeça do funcionário que atendeu ao pedido para um cheeseburguer sem adivinhar o resto.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
■ Não há vaga

Fátima estava um pouco – só um pouco – estressada quando voltou do fórum em torno das 14 horas, depois de saber, por meio do advogado,...

 
 
 
■ Abuso da falta de poder

Meu Deus, como havia gente naquela padaria! O aroma de pão saído do forno era aconchegante e convidativo. Talvez nem precisasse comprar...

 
 
 
■ Uma editora, por favor

Marina pegou o secador de cabelo que esperava por ela no sofá, ao lado da gargantilha vermelha escalada para ocupar seu pescoço naquele...

 
 
 

Comments


Faça parte da nossa lista de emails

bottom of page