top of page
Buscar

■ O Buracão

  • Foto do escritor: Rubens Marchioni
    Rubens Marchioni
  • 21 de fev. de 2024
  • 6 min de leitura

Chovia muito. Chovia muito onde eu vivi na infância, um sítio pequeno o suficiente para acomodar uma pequena plantação de café, uma pequena criação de animais domésticos e um pequeno lucro, que não permitia mais do que levar uma vida modesta, quase espartana.

Minha casa estava plantada a alguns metros do pasto. Do outro lado, já próxima à estrada, havia um barranco feito de terra vermelha, cor oficial da região.

Naquele dia choveu muito. Choveu muito mesmo. A grande árvore, na frente da porta da sala, ameaçou se jogar no chão.

Quando chovia além do previsto, a força da água dava um chega pra lá na vegetação rasteira e empurrava para baixo toda a terra que sua força conseguisse. Além de provocar um inevitável buraco, depois aprofundado pelo serviço de erosão que a natureza faz muito bem.

Nós o chamávamos de “Buracão”. Era um lugar que, passada a tempestade, se transformava em ponto turístico para alguns amigos que não se importavam em olhar até o fundo, mesmo que o medo não os deixasse a vontade pela ousadia sem medida. Crianças sem juízo, aquelas!

Gilberto, que depois frequentou comigo o curso primário, virou Giba e se manteve amigo pela adolescência afora, sentia muito medo de lugares vazios.

Ora, o Buracão era um lugar vazio na sua essência. Não sei por que diabos, a verdade é que o menino com cabelos loiros que desejavam ser vermelhos e um olhar que revelava o quanto se sentia acuado pelo mundo, resolveu que aquele era o dia de nos dar um susto.

Deu. Talvez certo de que tínhamos o dia inteiro pra cuidar desse tipo de situação, o safado decidiu que sentiria tontura e deixaria a força da gravidade puxá-lo para baixo. Caiu, bateu o braço contra o barro e lá ficou, imóvel feito um pedaço de pau.

Como se dirigisse uma viatura do Corpo de Bombeiros, voei baixinho até a casa dos pais dele, a 200 metros dali. Comecei a falar com o homem de bigode avantajado e a barba eternamente por fazer. Mas, sem que eu terminasse, ele logo me interrompeu, com aquele ar de pai preocupado e sem tempo, dizendo que o Gilberto não estava em casa, tinha ido ver o Buracão.

– Seu Dorival, ele está lá dentro do Buracão.

– Mas o que ele foi fazer lá dentro?

– Não sei, seu Dorival, ele caiu, é, ele caiu...

– Caiu!? Como ele caiu? Alguém derrubou o menino? – ô gente sem juízo! As sobrancelhas do homem ficaram ainda mais pesadas, acho até que bateram o recorde mundial.

– Não, seu Dorival, ele caiu sozinho.

– O Giba escorregou?

– Acho que sim.

– Como, “acho que sim”, moleque? Você não estava lá? Não viu tudo? Então como é que você não sabe?!

– Eu não sei, quando eu vi eu não vi mais, pronto, foi assim que foi.

– Tá bom, menino, tá bom, eu vou lá. O Gilberto vai ter o que ele merece. “Não sei por que a mãe dele tinha que viajar justo agora, com essa chuvarada e esse menino solto por aí” – pensou.

Voei baixinho de novo, só que agora com medo da reação de Dorival, dele bater no Giba e na gente também – Estatuto da Criança? Não. Mas ele não ia me alcançar com aquela barrigona de porco velho, e eu com combustível de avião.

– Gilberto, sai já daí, moleque!

Não sei, mas naquelas alturas meu amigo não sabia se era melhor continuar lá dentro, junto da lama e do escuro, ou se optaria por enfrentar o pai, um homem feito de braços fortes, resultado de toda a força física que fazia no carregamento de sacas de café e de arroz.

Dorival jogou uma corda e deu ordens para Gilberto segurar bem firme, que ele ia puxá-lo pra cima. O menino bem que tentou. Mas o braço torcido se recusava a aceitar esse esforço adicional naquele momento.

O pai tentou de novo. Não deu certo. E de novo. E de novo fracassou. Até que teve uma ideia que lhe parecia salvadora: fez um laço com a ponta da corda, algo que lembrava a forca de Tiradentes nas pinturas que conhecemos.

– Filho, se enlaça embaixo do braço e segura firme que eu vou puxar você pra cima.

Gilberto obedeceu. Enfiou-se dentro do laço e o apertou contra o tórax.

– Pronto? Vou puxar, segura firme.

– Pai, tá doendo!

– Tá doendo o que, menino, tá doendo o quê? Fica quieto!

– Tá doendo o braço machucado.

– Tá bom fica aí, fica calmo, filho, eu vou pedir pro seu Carlos me ajudar. Espera aí.

Do lado de fora do Buracão os amigos restantes e com um senso de estratégia baixo demais para lidar com uma situação em que o tombo do garoto podia repercutir em seus traseiros molhados, estavam tensos. Não sabiam se olhavam para Giba, lá no fundo, ou se tremiam – nesse caso lhes faltava a devida coordenação motora – para olhar, não podiam tremer; para tremer não podiam olhar. Fazer tudo ao mesmo tempo? Nem pensar.

A chuva ameaçou cair de novo, o recado veio do alto, travestido de relâmpago, céu escuro e trovão. Tudo o que não poderia acontecer naquela situação seria uma boa chuva aparecer de repente.

Dorival e o vizinho chegaram numa pequena carroça, as duas rodas acorrentadas para enfrentar o barro corriqueiro naquela época cheia de calor e de água. Agora eram dois homens, somando forças.

- Carlos, você trouxe aquela corda com gancho?

– Tá na mão, Dorival.

Com a mesma corda, desceram uma pequena escada até o fundo, nem tão profundo assim, mas tudo fica superlativo quando na história entra um braço machucado e o medo trabalhando juntos.

– Giba, sobe um degrau e agarra na escada, faz o que tô mandando, agarra na escada!

– Pronto, pai. Pode puxar.

– Espera aí, filho, calma aí.

– Joga a corda pra ele, Carlos.

– Giba, desce um pouco da escada e enrosca o gancho no primeiro degrau, você consegue fazer isso?

– Pai, tô com medo...

– Vamos, menino, agora não é hora de ter medo. Tinha que ter tido medo antes, saco!

– Vamos puxar – disse Carlos.

– Vamos, você puxa uma corda e eu puxo a outra, presa no menino. Mas tem que ser tudo ao mesmo tempo, senão ele cai de novo e aí...

- Será que entendi?

- Entendeu sim. Você levanta por baixo e eu puxo pra cima. Vê se usa o nariz grande pra ajudar... – disse Dorival, e riram.

- E vê se essa orelha de elefante pode ajudar também – Carlos respondeu. Riram correndo, como fazem amigos de longuíssima data em missão de salvamento.

– Um, dois, três, já! – disse Dorival.

Do lado de fora ainda havia restado um menino, que não sabia se rezava, se corria ou se ficava por aí mesmo. Seus cabelos estavam mais arrepiados e ainda mais bagunçados.

Gilberto veio à tona. Chegou à superfície do Buracão. Sentiu um doce momento de doce alívio. Tentou se agarrar ao barranco, mas agarrou-se a lugar nenhum. Verdade é que o barranco encharcado cedeu, talvez por não suportar o peso do menino, agora ainda mais pesado devido ao medo acrescentado ao corpo.

Ali não havia o requinte metropolitano de helicóptero sobrevoando a área, a gente apenas via um teco-teco perdido entre nuvens baixas e mandando pra nós só o ronco tímido de seus motores.

Gilberto foi resgatado, ele e sua tremedeira, frente ao olhar surpreso e amedrontado do único amigo restante.

Imediatamente o menino acidentado foi conduzido ao Pronto Socorro do modesto hospital da cidade. Na conhecida Casa de Misericórdia, a maioria dos casos era resolvida pela misericórdia divina, muito mais do que pela tecnologia. Claro, também não vamos condenar a instituição, que, por outro lado, não era todo esse atraso que o prezado leitor pode estar pensando – sem maldade, por favor.

No Pronto Socorro havia sobrado alguns pedaços de gaze e um pouco de gesso, restos do que foi necessário para atender adequadamente o filho mais novo do prefeito dois dias antes.

A enfermeira fez o que foi possível. Dorival e Gilberto voltaram pra casa com uma tranquilidade apenas possível e remédios para comprar. O Buracão foi fechado pela prefeitura, porque era impossível manter por mais tempo aquela situação.

Os meninos se reuniram novamente, a troca de comando foi feita - Giba, “O Experiente”, assumiu.

– Giba, onde a gente vai brincar agora? E quando tiver enchente, onde a gente vai brincar?

– Brincar? Não sei não.

Que brincadeira de mau gosto; que conversa fora de propósito!

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
■ Não há vaga

Fátima estava um pouco – só um pouco – estressada quando voltou do fórum em torno das 14 horas, depois de saber, por meio do advogado,...

 
 
 
■ Abuso da falta de poder

Meu Deus, como havia gente naquela padaria! O aroma de pão saído do forno era aconchegante e convidativo. Talvez nem precisasse comprar...

 
 
 
■ Uma editora, por favor

Marina pegou o secador de cabelo que esperava por ela no sofá, ao lado da gargantilha vermelha escalada para ocupar seu pescoço naquele...

 
 
 

Comments


Faça parte da nossa lista de emails

bottom of page