top of page
Buscar

■ As aventuras de uma chef

  • Foto do escritor: Rubens Marchioni
    Rubens Marchioni
  • 4 de out. de 2023
  • 5 min de leitura

Abrindo o pomar, a árvore exibia um festival de flores brancas que produziam um perfume suave e acolhedor como deve ser o paraíso terrestre. Ao seu lado, uma laranjeira fazia uma exposição de frutas maduras, mistura harmônica de amarelo predominante com verde, que atraiam a atenção até dos olhos mais distraídos.

Com os pés dentro de alpargatas, de bermuda e camiseta que a deixavam mais a vontade, Débora estava envolvida por todas essas sensações. O sentido da audição ficara comprometido, porque a visão e o olfato estavam com a agenda cheia e não se permitiam adiar nem mesmo um detalhe daquela experiência. Era sábado, e essas delicadezas consigo mesma eram mais do que permitidas.

Carol se aproximou, correndo e buscando os braços da mãe. Débora a acolheu. Fez um afago demorado.

– O que aconteceu, filha?

– Eu estava pensando como é o deserto.

– O deserto é um lugar onde chove bem pouquinho, quase nada. Por isso as plantas às vezes nem conseguem nascer.

– Aqui é deserto, mãe?

– Não, filha. Por que você acha que é?

– Porque aqui chove bem pouquinho. E você falou que a roseira morreu de sede.

– Não, Carol, no deserto não é como aqui. No deserto quase não tem água, não tem árvores, animais, laranjeiras como aqui.

– Onde tem deserto, mãe?

– Olha, tem em bastantes lugares do mundo. Mas aqui não é deserto, tá?

Com a cabeça povoada de imagens criadas ali mesmo e desenhando perigos imaginários, Carol voltou a brincar.

Débora apanhou algumas laranjas – pensava em fazer um pudim para o jantar. Reuniu os ingredientes necessários – uma xícara de açúcar, água quente, leite condensado, suco, raspas de laranja e ovos.

Dentre os utensílios que usaria estava uma forma de cobre, presente de amigos que também gostavam de se aventurar pela cozinha, inventando alquimias gastronômicas ou provocando acidentes que não chegavam a comprometer a ordem do universo, embora merecessem cautela.

Carol continuava brincando e também se preparava para fazer comida – um prato bem gostoso. Para ela, suas visitas chegariam a qualquer momento, e tudo devia estar pronto.

Como boa chef que era, cheia de uma experiência que só alguém com cinco anos de idade consegue acumular, a menina começou o trabalho culinário. Mas precisava de um utensílio de que não dispunha. No entanto, isso não a impediu. Sobre a penteadeira havia um objeto, usado pela mãe para fazer maquiagem, e ele bem poderia servir para a sua empreitada de não decepcionar as visitas. Tudo bem, era preciso remover o creme que estava lá dentro, o que para ela seria fácil, e o frasco estaria pronto para uso.

Carol livrou-se do moletom que comprometia movimentos que considerava precisos. Sondou o espaço ao redor e concluiu que sua mãe estava envolvida demais com a preparação do pudim e não ouviria qualquer tipo de barulho. Então ela poderia abrir a grande geladeira e pegar algumas folhas de espinafre, ingrediente indispensável para o prato que arquitetava.

A menina não era alta o suficiente para alcançar aquele legume. Mas lembrou-se de que em algum lugar existia um taco, meio esquecido pelo seu pai. Somando-se ao comprimento dos seus braços, numa verdadeira força-tarefa, o problema estaria resolvido.

Não estava.

É que junto das folhas de espinafre estavam outros objetos – coisas como o pote de vidro com café, uma garrafa de água e algumas garrafas long neck de cerveja que o casal degustava nas tardes de muito sol e ausência de chuva, com uma aparência justificada de deserto.

E eis que, numa atitude de rebeldia explícita, esses objetos gelados resolveram se jogar no chão, num gesto visivelmente suicida. O comportamento inesperado e repentino de todo aquele vidro era algo imperdoável. Sobretudo quando adotado frente a uma jovem senhora dedicada a preparar uma refeição para visitas imaginárias que, na sua fantasia infantil, chegariam apenas quando tudo estivesse devidamente pronto. Carol se atrapalhou.

Débora deixou tudo – o pudim desandaria sem qualquer impedimento –, pegou o carro, acomodou a filha acidentada e voou para o pronto socorro mais próximo. Não lidava bem com situações desse tipo. Alguns meses atrás, ela deixara de comparecer ao velório de sua melhor amiga devido à dificuldade que a fazia evitar olhar ou entrar em funerárias, cemitérios etc. Dizem por aí que isso não pegou bem. Tudo bem.

– Calma, filhinha, a gente já tá chegando. Vai ficar tudo bem, tá? Calma, a mamãe tá aqui, eu vou cuidar de você, a mamãe te ama, fica calma, tá? Vai ficar tudo bem.

A dedicação para acalmar a menina também chef de cozinha foi suficiente para que Débora se atrapalhasse diante de uma bifurcação na estrada que conhecia em detalhes, íntima de buracos e curvas surpreendentes para quem se aventurasse por ela na primeira vez.

Ela fez o retorno. Acelerou. Acalmou a filha. Tomou um gole de água, conseguindo pela primeira vez vencer o hábito característico de arrancar rótulos de embalagens. Sua mente foi tomada pelas imagens de um acidente que viveu quando criança, enquanto passava férias na casa dos avós.

Débora ajeitou o cabelo dourado, moldura para o rosto fino em pele clara, nariz reto e olhos cor de esmeralda, sob sobrancelhas quase invisíveis.

Respirou fundo. Foi mãe até onde é impossível ser mãe. Morria de medo de confirmar hipóteses levantadas por pessoas da família do marido sobre a sua falta de preparo para um bom desempenho do papel que assumiu, atuando pela primeira vez, agora como protagonista. Era preciso conquistar ou reconquistar a confiança do grupo.

No pronto socorro havia fila. Mas Débora não queria esperar – Carol era prioridade das prioridades. Furou a fila e correu para dentro com a menina nos braços. Foi advertida, mas não ouviu. “Senhora! Senhora!, a senhora não pode entrar assim, tem de passar...”

Não adiantou. Débora e Carol já estavam lá dentro. Não adiantou. Sem triagem, não seriam chamas no painel.

Agarrou pelo braço a primeira enfermeira, entregou-lhe a menina e pediu providências urgentes. “Senhora!...” “Olha aqui, você deve ser mãe, se não é, vai ser, você sabe o que eu estou sentindo, por favor, a minha filha, por favor, faça alguma coisa, o bracinho dela está sangrando, chama o médico, sei lá, faça alguma coisa, doutor, minha filha está machucada, por favor...” Entre ser mãe e falar tão corretamente como convém a uma tradutora e intérprete, Débora devia ficar com os dois.

No meio daquele tumulto que a surpreendeu, a enfermeira colocou a menina acidentada nas mãos do médico que passava pelo corredor, a caminho de resolver uma intercorrência acontecida com um paciente. Outra médica assumiu o caso – deu cinco pontos, fez os curativos de praxe, receitou um remédio e liberou a menina, que deveria ficar em repouso.

Na saída, Débora passou pela Recepção, entregou o cartão do convênio médico e pediu para que fizessem os procedimentos de praxe. Queria que a passagem delas por lá ficasse registrada. Mas também fazia questão de que as coisas fossem rápidas, muito rápidas, porque precisava passar logo pela farmácia e voltar para casa. Como é de praxe, nada foi tão rápido, porque não era permitido furar a fila. Dessa vez ela esperou.

Em casa, o marido recém-chegado do trabalho esperava por elas – de nada teria adiantado passar pelo pronto socorro – as duas estavam quase chegando.

Alívio misturado com apreensão. Também era de praxe nesses casos.

O almoço foi servido. A jovem chef se manteve num repouso com prazo curto de validade. Afinal, as visitas chegariam a qualquer momento e tudo estava por fazer.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
■ Não há vaga

Fátima estava um pouco – só um pouco – estressada quando voltou do fórum em torno das 14 horas, depois de saber, por meio do advogado,...

 
 
 
■ Abuso da falta de poder

Meu Deus, como havia gente naquela padaria! O aroma de pão saído do forno era aconchegante e convidativo. Talvez nem precisasse comprar...

 
 
 
■ Uma editora, por favor

Marina pegou o secador de cabelo que esperava por ela no sofá, ao lado da gargantilha vermelha escalada para ocupar seu pescoço naquele...

 
 
 

Comments


Faça parte da nossa lista de emails

bottom of page